quinta-feira, 10 de maio de 2012

Azazel: Cristo ou Satanás?




É lamentável a conclusão que chegam alguns evangélicos quanto ao significado que a IASD dá a Azazel. É incoerência dizer que o salvador de um grupo de pessoas que são batizadas em nome da Trindade, que tem como uma de suas profissões de fé "O sacrifício de Jesus Cristo e a aceitação do mesmo como Salvador pessoal", em oposição ao inimigo, tenham a "satanás" como Senhor. Somente a falta de respeito e sinceridade pode fazer algo assim.

Seria mais do que absurdo afirmar que Satanás seja um salvador em qualquer sentido. A IASD ensina que ele é o autor e instigador do pecado. Ele foi o primeiro responsável pelo pecado, deve ser exemplarmente punido, pelos seus pecados e dos outros, pois repousa sobre ele a responsabilidade na indução de pecados.

Tais acusações ocorrem pela interpretação que dão os Adventistas quanto a Lv 16, sobre o Bode Azazel, por identificarem o bode emissário como a representação de Satanás.
Apenas para iniciar vejamos algumas formas de contaminação do santuário. Ilegítimas maneiras de contaminação. Muitos creem na contaminação automática do santuário, vejamos: Lv 20:2, 3 - Nm 19:13, 20 - idolatria radical causava a contaminação automática do santuário. Esses pecados eram transferidos para o santuário e no dia da expiação seriam definitivamente excluídos. Perceba que o sangue limpa a pessoa diariamente (Lv 4) e o santuário anualmente (Lv 16). O caminho do pecado para o santuário era por meio do sangue. Lv 16:16. O pecado era transferido diariamente para o santuário pelo sangue e o mesmo não era purificado diariamente, o pecado de todo o ano era acumulado ali. O sangue das vítimas era levada ao santuário e ali orvalhado, "sete vezes diante de Jeová, para o véu do santuário" (Lv 4:6, 17), nos casos quando o sacerdote ungido ou toda a congregação houvesse pecado.

Deus orientou uma purificação do santuário apenas uma única vez ao ano,  este dia é o Yomkipur ou dia do perdão e/ou expiação. Era um dia muito importante para o povo de Israel, que afligiam suas almas, ficavam em oração e não podiam realizar alguns tipos de trabalhos. Durante 10 dias, reconhece-se a Deus como Rei do presente, Juiz do passado e Redentor do futuro.

O dia da expiação era cheio de beleza e adoração, o sumo-sacerdote passava a semana em oração preparando todo o ritual, com muito cuidado, para que tudo desse certinho, muito planejado. Primeiramente banhava-se, vestia sua roupa e fazia expiação por ele e sua casa.
No decorrer diário de sacrifícios o pecado do povo era transferido do israelita arrependido para o santuário, que ia se acumulando até chegar ao seu ponto máximo. Esse limite acontecia uma vez ao ano (dia da expiação), o dia do limite da paciência divina em favor do pecador e contra o pecado.

Acho bastante providencial que Deus tenha desenvolvido esse método para ensinar-nos algumas coisas muito importantes, umas das várias é a questão quanto a predestinação. Perceba que se alguém levasse um animal ao santuário, o animal, agora seria o responsável pelo pecado do israelita, ele estava "livre" mas isso não dava o direito do Israelita viver deliberadamente em transgressão, pois ainda haveria o dia do juízo uma vez ao ano, e, se este dia o encontrasse de forma incoerente com a mensagem do Deus que este professava, ele seria expulso do acampamento. Tipologicamente temos um quadro que mostra alguém precisando ser fiel até o fim, sendo ré-avaliado em um momento da vida, o dia do Yonkipur.

É importante lembrarmos que o perdão só se dava porque Deus em sua infinita misericórdia resolvia aceitar o sacrifício oferecido pelo pecador, não porque o pecador estivesse negociando com o Senhor, já nesta época era pela graça, de graça.

 A visão adventista entende que no dia do juízo para Israel, o pecado voltava para o seu devido originador, o diabo. Ele, representado pelo bode emissário, levava os pecados acumulados no santuário para o deserto. Pecados esses que eram confessados na cabeça do animal para "azazel ou emissário".

 O termo original em hebraico para "confessar" sobre a cabeça de azazel ou emissário é "yadah" que pode ser traduzido por "lançar". Os pecados eram lançados e/ou devolvidos ao seu originador. Embora Deus faça questão de chamar para si a responsabilidade quanto aos problemas do homem, Ele não foi o originador do pecado.

Inicialmente a atividade com Azazel ocorria assim:
Devia-se colocar os 2 bodes, ambos, diante da porta do Santuário diante do Senhor. Lv 16:7
Lançaria-se sorte para ver qual animal seria para o Senhor e qual seria para Emissário. Lv 16:8
O bode que cair a sorte para o Senhor seria oferecido como expiação pelo pecado, morreria como um sacrifício e o animal que caisse a sorte para azazel seria enviado ao deserto.
Havia um detalhe muito importante no ritual, é que antes de sacrificar o bode para o Senhor, o sacerdote não confessava pecados sobre a cabeça do animal. Isto nos quer dizer que o sangue deste animal não tinha pecados ou não era contaminado, assim, o sangue não entrava para contaminar, mas para purificar, pois quando o sangue entra sem pecados ele não contamina, mas purifica. Seria o animal pra resolver o problema do débito do pecador como Cristo resolveu. Prefigurava esta cerimônia a morte de Jesus como satisfação à exigência da lei, havendo sido o Seu sangue derramado em substituição de todos os pecadores arrependidos. O sangue deste animal vai para dentro do santuário, dentro do véu, o sangue é aspergido sobre o propiciatório (que é símbolo de Cristo), esse animal faz expiação por todas as transgressões de Israel e pelo santuário. Percebe-se então que este animal faz um trabalho onde tem que ver com perdão através de derramamento de sangue. O animal vai ao santuário para resolver o problema do pecado, não para ficar com o pecado. Lv 16:9,15

QUEM É AZAZEL?
Algumas razões para relacionar Azazel com Satanás:
 A tradução de Almeida é "bode emissário, em hebraico é um nome próprio: AZAZEL. Por ser um nome próprio, deve significar alguém, não um objeto ou algo.

 O fato de ser lançado sortes um "por Jeová" e outro "por Azazel". Segundo o Talmud, os bodes deviam ser o mais parecido possível (Talmud - Yoma 62a), para evitar o erro de trocarem, atavam um cordão escarlate no chifre do bode para Azazel e um no pescoço do bode para o Senhor. Não haveria necessidade desta atitude se os bodes tinham a mesma finalidade. Por que lançar sortes e fazer tão específica distinção se os dois tinham o mesmo simbolismo e representavam a mesma pessoa? Acaso não estaria esta atitude demonstrando que eram opostos e que eram divergentes? Se os dois representassem o mesmo personagem, não haveria necessidade de fazer distinção entre ambos, contudo, no dia da expiação, indicam, pelo contraste entre eles, que um tipificava Cristo e o outro logicamente o adversário de Cristo.

 Escritores hebreus e cristãos concordam que Azazel seja um tipo de Satanás. Ex.: M'Clintock And Strong, Cyclopedia of Biblical, Theological and Ecclesiastical Literature, Vol. 9, págs. 397 e 389 art. "Scapegoat"; The Encyclopedic Dictionary, Vol. I, pág. 397; J. Hastings, Bible Dictionary, pág. 77, art. "Azazel;" The New Sehaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, Vol. 1, Pág. 389, art. "Azazel."

 A (RC) mostra em Lv 16:9 que o bode que teve a sorte "pelo Senhor", Arão, "o oferecerá para expiação do pecado" o outro de "por Azazel" não era sacrificado, assim Jesus não pode ser representado por ele, pois não era um sacrifício, não derramava sangue.

 A Bíblia de Jerusalém em nota de rodapé, comentário, diz quanto a Azazel: A versão Siríaca, é o nome de um demônio que os antigos hebreus e cananeus acreditavam que habitasse o deserto, terra árida, onde Deus não exerceria a sua ação fecunda.

Satanás é o originador de todo o pecado. Ele é responsável pelos seus pecados e de todos os homens, e haverá de pagar por todos os pecados não perdoados dos homens, por todos os que induziu as pessoas a pecar. Deverá pagar pelo preço com a vida, conforme Ml 4:1 e 3 quando diz: "...não restará raiz nem ramo." "...se fará cinza debaixo de nossos pés". É óbvio deduzir que deixará de existir, pois nem raiz, nem ramo, só cinza.

De acordo com a tipologia do santuário os pecados dos homens não são expiados por satanás, ele os carrega por responsabilidade, não que Deus se isente ou deixe de ser responsável pelo homem, mas Deus não foi o originador do pecado.

 É de fundamental importância o derramamento do sangue para simbolismo da pessoa de Cristo - Hb 9:22 "Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e, sem derramamento de sangue, não há remissão".

Sobre o sangue do Cordeiro, leia, também, as seguintes referências: Mt 26:28; Mc 14:22; Lc 22:20; At 20:28; Rm 3:25 e 5:9; 1Co 11:25 e 27; Ef 1:7; Cl 1:20; Hb 9:7, 12-14, 25; 10:4, 19 e 29; 11:28; 12:24; 13:11-12 e 20; 1Pe 1:2 e 19.

 Os opositores tem razão quando dizem que a etimologia da palavra Azazel não é clara. A etimologia é o estudo da origem e da evolução das palavras. O mais correto é transliterar e o aceitar como um nome próprio visto que está em completa antítese com o termo YHWH, o famoso Tetragrama Hebraico do nome de Deus e que traduzimos pelo termo Adonai (Senhor), que certamente é um nome próprio.
 Não são apenas os adventistas que sustentam essa posição. Diversos teólogos dizem o seguinte:

a) George B. Stevens - "a origem e significado do bode 'para Azazel' é obscuro". (The Christian Doctrine of Salvation, p. 11);

b) T. W. Chambers - "esta sua etimologia não é clara". ("Satan in the Old Testament", Presbyterian and Reformed Review, vol. 3, p. 26);

c) A. R. S. Kennedy - "Etimologia, origem e significado são ainda matéria de conjectura. A palavra Azazel é um nome próprio no original, e em particular o nome de um espírito poderoso ou demônio". (Hastings Dictionary of the Bible, p. 77)

d) Dr. S. R. Driver - "Um espírito mau, … A palavra ocorre apenas aqui no Velho Testamento. … Acima de tudo, a marcada antítese entre para Azazel e para YHWH não deixa aberta nenhuma dúvida que é concebido como um ser pessoal". (Book of Leviticus, p. 81)

e) Uma nota na Review and Herald [publicação adventista] de 07 de julho de 1868 cita Irineu (c. 185 a.d) caracterizando a Azazel como "aquele caído e poderoso anjo" (Contra Heresias 1. 15).

f) Dr. M. M. Kalisch - "Não pode haver dúvida que este Azazel é pessoal, um super-humano, e um ser mau - em fato é um demônio, …" (A Historical and Critical Commentary on the Old Testament, vol. 2, p. 328) - este autor comenta que escritores cristãos primitivos identificavam Azazel como sendo o próprio Satanás.

g) "Pelo uso da mesma preposição … em conexão com Jeová e Azazel, parece natural … pensar de algum ser pessoal". (International Standard Bible Encyclopedia, "Azazel", vol. 1, p. 343);

h) Smith e Pelouber - "Os melhores estudiosos modernos concordam que [Azazel] designa o ser pessoal para quem o bode foi enviado, provavelmente Satanás". (A Dictionary of the Bible, p. 65).

i) Charles Beecher - "O que vem a confirmar isto, que a maioria das paráfrases e traduções antigas tratam Azazel como um nome próprio. As paráfrases dos Caldeus e os targuns de Onkelos e Jônatas certamente o teriam traduzido se não fosse um nome próprio, mas eles não traduzem. A Septuaginta, a mais velha versão Grega, traduz como "apopompaios", uma palavra aplicada pelos Gregos para uma divindade maligna.

j) J. Russel Howden (Igreja da Inglaterra) - "O bode para Azazel, como é algumas vezes incorretamente traduzido, tipifica o desafio de Deus para com Satanás. Dos dois bodes, um era para Jeová, significando a aceitação de Deus da oferta pelo pecado; o outro era para Azazel. Isto é provavelmente para ser entendido como uma pessoa, sendo paralelo com Jeová na cláusula precedente. Assim Azazel é provavelmente um sinônimo para Satanás". (Sunday School Times, 15 de janeiro de 1927);
k) Samuel M. Zwemer (Igreja Presbiteriana) - "O demônio tem um nome próprio - Azazil. Ele foi expulso do Éden". (Islam, a Challenge to Faith, p. 89);

m) E. W. Hengstenberg (Igreja Luterana) - A maneira pela qual a frase 'para Azazel' é contrastada com 'para Jeová' necessariamente requer que Azazel deveria designar uma existência pessoal e se assim for, somente Satanás pode ser intencionado. Se por Azazel não quer dizer Satanás não há razão para o lançar sortes. (Egypt and the Books of Moises, pp. 170 e 171).

l) J. B. Rotherham (Discípulos de Cristo-?) - "Presumindo que Satanás é representado por Azazel - e não há nada mais que biblicamente possamos presumir - é mais importante observar que não há aqui nenhum sacrifício oferecido para o espírito mau". (The Emphasized Bible, vol. 3, p. 918);

m) William Jenks (Igreja Congregacionalista) - "Spencer, depois das mais antigas opiniões dos Hebreus e Cristãos, pensa que Azazel é o nome do demônio, … O Siríaco tem Azzail, o "anjo que revoltou". (The Comprehensive Commentary of the Holy Bible, p. 410);

n) (Metodista) - "O que a palavra queria dizer é desconhecido, mas deveria ser retida como o nome próprio de um demônio do deserto". (Abingdon Bible Commentary, p. 289).

o) Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos - "Azazel: talvez um nome para Satanás, usado somente neste capítulo".(http://www.usccb.org/nab/bible/leviticus/leviticus16.htm).
 Ainda outra evidência é encontrada no Árabe, onde Azazel é empregado como um nome de um espírito mau" (Redeemer and Redeemed, p. 66)

 No livro de lº Enoque (2º Séc. a.C) há uma lista de anjos que recebem muitos nomes que são dados aos anjos bons e aos maus; entre os anjos maus está o nome de Azazel. Portanto, em tempos pré-cristãos, Azazel foi identificado com um poder demoníaco.

Como pode ser visto, a citação levítica em referência a Azazel como um tipo de Satanás já vinha sendo exposta por diversos teólogos, estudiosos e inclusive por cristãos de épocas bem remotas, a Igreja Adventista apenas reconhece esta referência inspirada do livro de Levítico e divulga esta verdade em relação ao santuário.

Um estudo histórico da literatura adventista mostra que a primeira discussão sobre o bode emissário aparecendo em uma publicação dos adventistas pertencente a O. R. L. Crosier no Day-Star 9:43 (07-fev-1846), reimpresso no famoso periódico adventista Review and Herald 1:62 e 63 (set-1850). Provavelmente a primeria discussão por um escritor adventista observador do sábado foi um editorial feito por Tiago White também na Review and Herald (07-nov-1856) dando essencialmente a mesma explicação, identificando o bode emissário como Satanás.

Fazendo uma análise antítese de levítico 16 temos o seguinte:
No Texto Hebraico a mesma expressão é usada tanto como referência ao bode para o Senhor quanto ao bode para Azazel. No Hebraico Moderno permanece ainda este tipo de estrutura em referência a algo que está sendo dirigido a alguém. Ao escrevermos um documento e enviá-lo identificamos o destinatário com a preposição. Por exemplo, se tenho dois objetos para enviar para a mesma pessoa não faria sentido eu dizer, "este é para João e este é para João", mas se são dois destinatários diferentes eu diria que "este é para João e este é para José". Na bíblia há uma antítese, é o relato que encontramos em 1Rs 3:25, algo interessante! É bem conhecido o relato das duas mulheres que vieram ter com Salomão discutindo a respeito sobre quem era a verdadeira mãe de uma criança, cada uma delas atribuía para si a maternidade. Diante de tamanho problema, Salomão, com a sabedoria que Deus lhe havia dado, toma uma decisão, diz que para resolver o problema iria partir a criança em duas e uma metade seria para uma mulher e a outra metade para a outra (v. 25) e resolvida estaria a situação. Diante disso, a verdadeira mãe suplica a ele que não deveria fazer tal coisa, que entregue a criança à outra mulher, mas que a deixasse viva. Essa foi para o sábio rei a prova contundente de que era a verdadeira mãe. Se procurarmos traduzir literalmente esta sentença conforme expressa na última parte do verso 25, teríamos: "e dêem a metade para uma e a metade para uma". Uma antítese. É óbvio que mesmo usando a mesma palavra ("uma") podemos ver que "metade para uma" e "metade para uma" estão em antítese, isto é, uma da primeira parte não é a mesma uma da segunda. Não faria sentido Salomão pedir para dividir a criança e entregar as duas metades para uma mesma mulher. Se as duas metades fossem para a mesma uma, não faria sentido a sentença formulada como tal e nem mesmo faria sentido a divisão em si. Por isso, ao traduzir a sentença podemos adaptar o texto para nossa língua e declarar: "e dêem a metade para uma e a metade para a outra", que é a única tradução contextualmente aceitável.

No relato de Levítico acontece a mesma coisa, uma antítese é encontrada, entendemos que não faria sentido da mesma forma dizer: um para o Senhor e outro para o Senhor, assim, traduzindo para nossa lingua o mais aceitável seria "um para o Senhor e outro para alguém que não é o Senhor".

Não há paralelos da tipologia com a História da Redenção onde Jesus tenha expiado pecados tendo sido deixado em um lugar desolado até morrer, sem derramamento de sangue. Seria inadmissível atribuir uma segunda morte a Cristo Jesus!

Embora o texto apresente que Azazel faça parte da expiação de uma forma geral, seu real significado mostra que esse animal não poderia fazer expiação como remoção de pecados, visto que "sem derramamento de sangue não há remissão de pecados" (Hb 9:22). Porém não podemos esquecer que Satanás é "homicida desde o princípio.., e pai da mentira" (Jo 8:44).

Se é verdade que Azazel é Cristo por compará-lo a Isaias 53 quando diz "levará sobre si as iniqüidades" deveríamos então encontrar uma ligação onde o mesmo Azazel fosse "ferido por nossas transgressões".

Azazel expia no sentido de sofrer as conseqüências como resultado de algo! A problemática maior é com relação a palavra EXPIAR.

EXPIAR de acordo com o dicionário HOUAISS:
Verbo transitivo direto.
1.Remir (a culpa), cumprindo pena.
2. Sofrer as conseqüências de
3.Sofrer, padecer. [C.: 1. Cf. espiar.]
§ ex.pi:a.ção sf.
O sentido ETIMOLÓGICO da palavra EXPIAR é:
Desviar um mal com cerimônia religiosa.

No ritual da expiação toda maldade (pecados) é lançada sobre Satanás que é enviado ao deserto com o objetivo de desviar do meio do povo de Deus os pecados!
Expiar no sentido de remir, perdoar, só Jesus!

Nos dias atuais no Estado de Israel, o termo Azazel leva uma conotação muito pesada. Você pode usá-lo quando deseja enviar para um local nem um pouco recomendável. Mesmo em nossos dias a religião judaica preserva e comemora as festas vetero-testamentárias, em especial a do Yom Kippur (Yom HaKippurim), mais conhecida como Dia da Expiação. Embora saibamos que a oferta já foi feita, o preço já foi pago, o Cordeiro já foi morto, mesmo assim você encontra neste dias rabinos que sacrificam frangos como um meio de obter o favor divino. Neste dia nem sequer um carro é permitido se movimentar nas regiões que por Israel são controladas. O trabalho é parado completamente. É o Dia do Perdão. Dia de acertar as contas com o próximo e com Deus.

É difícil acreditar que este mesmo povo que recebeu um dia os oráculos do Senhor e as admoestações a respeito das comemorações cívicas e religiosas hoje se esqueceria do significado deste termo (azazel). O mesmo povo cujo zelo era tanto para com o nome do Senhor que, por não querer "tomar o nome do Senhor teu Deus em vão" (Ex 20:7), nem sequer Seu nome pronunciavam (YHWH), cujas festas dadas anteriormente pelo Senhor fazem questão de que sejam celebradas, que até mesmo em nossos dias oferecem sacrifícios, esquecessem o Ritual do Santuário com todos os seus simbolismos e importância. Se realmente o povo de Israel entendeu o bode Azazel como na mesma igualdade que o bode para o Senhor, por que isto não é refletido em nossos dias na maneira como eles lembram e celebram o Yom Kippur?

QUANTO A IMPORTÂNCIA DO SANGUE
Rm 5:9 "Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue...";
Ef 1:7 "Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça";
Cl 1:14 "Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados";
Ap 1:5 "E da parte de Jesus Cristo, que é a fiel testemunha, o primogênito dentre os mortos e o príncipe dos reis da terra. Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados"
Não há dúvidas de que o animal que representaria Cristo deveria derramar sangue.

"Azazel é o caminhão de lixo. O ritual de Azazel é eliminatório, nunca expiatório".
Em páginas judáicas ou de judaizantes na internet encontra-se Azazel como uma identificação para nomes de demônios, entidades malignas.
Ele é mandado ao deserto - comparar passagens: Ap 20; Lv 16; Jr 4; Gn 1:2


DESERTO, MORADA DE DEMÔNIOS
A concepção de que o deserto era morada de demônios para o povo israelita não é só fruto da tradição, mas a própria bíblia traz informações muito importantes. Lendo os versos em sequência entende-se a relação entre eles.

Dt 32:17 - Ofereceram sacrifícios aos demônios, a deuses falsos que não haviam adorado antes, novos deuses que os seus antepassados não conheciam.

Lv 17:7 - Daqui em diante e para sempre, os israelitas nunca mais oferecerão sacrifícios aos demônios do deserto, pois, se fizerem isso, estarão sendo infieis a Deus.

2Cr 11:15 - Jeroboão escolheu os seus próprios sacerdotes para oferecerem sacrifícios em altares pagãos e adoarem demônios e as imagens de touros que ele tinha mandado fazer.

Is 34:14 - Os gatos do mato e outros animais selvagens morarão ali, demônios chamarão uns aos outros, e ali a bruxa do deserto encontrará um lugar para descansar.

Mt 12:43 - Jesus continuou: Quando um espírito mau sai de alguém, anda por lugares sem água, procurando onde descansar, mas não encontra.

Lc 11:24 - Jesus continuou: Quando um espírito mau sai de alguém, anda por lugares sem água, procurando onde descansar, mas não encontra. Então diz: "Vou voltar para a minha casa, de onde saí.

Ap 18:2 - E gritava com voz forte: Caiu! Caiu a grande Babilônia! Agora quem vive ali são os demônios e todos os espírito imundos. Todos os tipos de aves e feras imundas e nojentas vivem nela.

 No final de tudo Satanás será declarado culpado de todo o mal que fez os filhos de Deus cometerem, deverá sofrer o castigo final. Quão apropriado é que o ato final do drama da forma em que Deus trata o pecado, seja fazer cair sobre a cabeça de Satanás todo o pecado e toda a culpa que, iniciando originalmente dele, trouxeram uma vez tal tragédia às vistas dos que agora se acham liberados do pecado pelo sangue expiatório de Cristo. Deste modo se completa o ciclo, termina o drama. Somente depois de que Satanás o instigador de todo o pecado tenha sido finalmente tirado, poderá se afirmar com certeza que o pecado foi eliminado para sempre do universo de Deus. Só depois que o diabo e seus anjos forem "cortados" e "expulsos ao deserto", então, e só então, poderá dizer que todo o universo está em perfeita harmonia e unidade, como esteve originalmente, antes que entrasse o pecado no mundo.

Muitos evangélicos não aceitam que o diabo tenha parcela de culpa por nossos pecados.
 Antonio ensina uma criança chamada José a matar e assassinar cruelmente suas vítimas, José por sua vez cumpre direitinho o que aprendeu. Vem a polícia e prende José, será que Antonio tem alguma parcela de culpa nisso tudo? Foi o Antonio quem ensinou tudo a José, ele o tornou assim. Isso é na vida espiritual, o Diabo que é o pai da mentira e sedutor de todo mundo é responsável não só por seus próprios pecados, mas por todos que já fez ou seduziu toda raça humana a pecar.
Não sejamos pois ignorantes em falar o que disse um certo pastor de uma determinada igreja por não concordar que o diabo é responsável por nossos pecados, mas o ser humano mesmo o é responsável. No meio da conversa aquele pastor falou que: "...se Adão e Eva não tivessem caído com a tentação da serpente, teriam caído posteriormente em outra tentação, pois o sacrifício que Cristo faria estava predito antes da fundação do mundo". Isso é que é hermenêutica!!!!

A Tradição Ética Helênica



GRENZ, Stanley. A busca da moral: fundamentos da ética cristã. Tradução de Almiro Pisetta. São Paulo: Vida, 2006.

A tradição ética helênica foi marcada pelo desenvolvimento filosófico de grandes filósofos nos tempos gregos e que largamente influenciou o mundo pós Grécia, alcançando mesmo algumas religiões do passado e até do presente, especialmente o cristianismo. Em sentido mais amplo e geral, pode-se definir a ética como “filosofia moral”, que “envolve a reflexão sobre a moralidade, problemas e juízos”. Como já mencionado acima, a reflexão moral não se restringe apenas aos cristãos, uma vez que fora discutida mesmo entre os grandes filósofos. Eles puderam fornecer o molde “que deu forma à tradição ética ocidental”. Embora muitos dos códigos de ética tenham vindo de muitas discussões filosóficas helênica, o cristianismo herdou grande parte de sua ética do povo hebreu.

Platão. Para Platão, as definições mais perfeitas poderiam vir a partir de nossa compreensão do subjetivo ou imaterial. Para ele o espiritual, o superior era mais sublime e real. As virtudes de cada ser humano tanto racional quanto passional formavam a alma e a integração ordenada que conseqüentemente levou-o ao entendimento da virtude.  Para este filósofo, as más ações eram resultado da ignorância e as atitudes boas e a busca pelo bem eram resultantes da razão, do entendimento e da sabedoria. Com respeito da sociedade ordenada, ele acreditava que o conceito de justiça envolvia o conceito individual e da contribuição para o todo. Com o tempo, Platão “passou a defender uma vigorosa moralidade de estrita virtude”, e a busca do bem se resume em uma vida de integração ordenada. “Podemos resumir o conselho de Platão para a vida ética: cuidado com o prazer, especialmente os prazeres do corpo; procure antes conseguir equilíbrio e harmonia na vida, de modo que você possa empreender buscas intelectuais, em cujo ápice está a contemplação da forma do bem”.

Aristóteles. “Sua proposta ética começa com a questão acerca do propósito ou função da pessoa humana (nossa causa final)”. Embora voltado para algumas questões dos desejos e do prazer do humano, ele não era totalmente hedonista. Acreditava que tudo se focava mais para a busca da felicidade. “A felicidade é então a mais nobre e a mais agradável coisa do mundo”. Para ele o conceito de felicidade era o de sentir-se bem, envolvendo o viver ou o comportar-se. Em outras palavras, a felicidade é o exercício efetivo da razão. Para ele, com respeito a virtude, é uma qualidade que permite as pessoas “funcionarem bem – cumprir suas funções com eficiência”.

A disposição de caráter e aprimoramento moral era uma das preocupações de Aristóteles. Ele dizia que não devemos apenas entender o que é certo, mas devemos agir em função do que é certo. Mas, dizia que as ações certas nem sempre tornava as pessoas virtuosas. Acreditava que era possível nos tornar pessoas virtuosas desde que usássemos nossa vontade para alcançar este ideal. Ao contrário de Platão, Aristóteles acreditava mais no  metafísico como fonte da ciência.
Epicuro e a paz Espírito. Epicuro acreditava que o conhecimento nasce dos nossos sentidos e não meramente das idéias dos filósofos. Ele desenvolveu uma ética mais baseada na serenidade  e paz de Espírito, contrastando com o foco do conhecimento eterno, que caracterizou Platão e Aristóteles.

Epicuro acreditava na virtude como princípio do prazer desde que ela fosse capaz de nos ajudar a escolher os prazeres certos. “O prazer deve ser produzido pela razão, que age com sobriedade, examina os motivos de todas as escolhas e rejeições e afasta todas aquelas opiniões por meio das quais a confusão toma conta da mente”. Para Epicuro, o prazer e a dor da mente são mais significativos do que o do corpo. Ele negou que alguma providência divina governe o mundo, acredita que até mesmo os deuses não passam de meros átomos. Os deuses não possuem interesse pelos humanos e muito menos controlam-na. Por esta razão é que ele acredita na conseqüência física dos acontecimentos e não teológica. Inclusive diz ele que por não haver retribuição divina, não precisamos temer a morte.
Este filósofo Acreditava substancialmente na prudência e no valor da amizade. Segundo ele, a prudência leva o sábio a evitar a dor que aflige e a escolher os prazeres certo, isto é, tudo o que facilita a serenidade  a paz de espírito. A amizade propagada por Epicuru, parece muito superficial e extremamente frágil e parece mais estar fundamenta no interesse do que na utilidade mútua.

Os Estóicos e o autocontrole resignado. Para este tipo de tradição filosófica, o objetivo primeiro da vida é a sabedoria. Acreditavam que a sabedoria era viver segundo a natureza e não como a contemplação das coisas eternas. A realidade é racional, pois a natureza é regida pelas leis da razão. A vida é guiada pela providência. Viver bem, consiste em viver segunda a natureza, isto é, de acordo com os princípios do universo. Permitir que as leis do universo permeiem a nossa vida. Este tipo de filosofia acredita que devemos viver sob as rédeas  dos deveres mútuos exigidos pela cidadania do universo.

Plotino e a união com o Divino. Com Plotino, na verdade ressurge o neoplatonismo. Platão acreditava que viver bem consiste bem no abandono dos sentidos para buscar a contemplação das formas eternas. Porém na teoria Plotino, nos levam mais a interioridade da alma, talvez mais ao místico e ao êxtase. Nessa experiência, a alma torna-se divina. A divinização da alma resulta nos deveres Moraes, na regulação dos prazeres e no conviver em comunidade.


Embora o texto tenha sido escrito em uma linguagem meio que erudita, é possível perceber que cada filosofo tinha uma determinada preocupação com variadas atitudes, especialmente no que diz respeito à convivência mútua. A busca da felicidade e a busca das atitudes do bem, individual e coletiva eram determinantes entre eles. A contribuição pode ser real, desde que filtremos estes pensamentos com a ética cristã.

[1] Gilberto G. Theiss está Bacharelando em Teologia pelo Seminário Adventista Latino-Americano de Teologia

quarta-feira, 9 de maio de 2012

De Volta Para o Futuro: De Lorean e o "Esmero" da Educação Ateísta



Creio que a maioria já teve o prazer de assistir ao menos um dos três filmes da série "Back to the Future", ou "De Volta Para o Futuro", para nós tupiniquins.


No filme, o Dr. Emett Brown - interpretado por Christopher Lloyd - cria uma máquina do tempo à partir de um carro De Lorean DMC-12. Até hoje eu não entendi o motivo do filma chamar-se "De Volta Para o Futuro" se a trama principal se desenrola no passado! 

Algumas 'previsões' do filme até se tornaram realidade!  Vejamos:



- No segundo longa, há a previsão do filme "Tubarão" (na 19ª continuação!), só que em 3D!
- No mesmo filme, Marty assina um documento cujo 'papel' é um Tablet!
- Na terceira versão há TV's ultrafinas (plasma, LED, 3D?) e videoconferencia!

Ironias à parte, gostaria de fazer uma viagem imaginária no De Lorean do Marty e relembrar alguns disparates produzidos pala fina argumentação ateísta contra - principalmente - os cristãos! Do mais atual:


  • O Dr. Ben Carson, um dos maiores neurocirurgiões do mundo, recentemente causou polêmica na comunidade científica ao se declarar abertamente crente em um discurso para formandos. Professores da Universidade Emory  declararam ser "profundamente preocupante que ele [Carson] equipare a aceitação da evolução com a falta de ética e de moralidade. E que não só incentiva a inserção de cunhas desnecessárias e destrutivas entre os americanos, mas está contra muitos dos ideais desta universidade”. Ironicamente a Emory é cristã! O dr. Carson recebeu ainda um diploma honorário durante a graduação!
  • O mais renomado cientista brasileiro da atualidade, Miguel Nicolelis -que prometeu fazer um paralítico dar o pontapé inicial no primeiro jogo da Copa 2014 - saiu dizendo que Jesus era esquizofrênico! Tudo, claro, com muita base científica e nenhum raciocínio empírico(sic)! Segundo ele, Jesus, Maomé e Abraão precisariam de Haldol - medicamento para pacientes esquizofrênicos.
  • Recentemente Jerry Coyne (ateu) acusou Francis Collins (ambos cientistas de renome mundial) de ser um "embaraço para o NIH (National Institutes of Health) e todas as pessoas racionais, proponente de crenças anticientíficas e pateta criacionista". Segundo o site "Criacionismo" (aqui), entre 1971 e 2007 Collins publicou 384 artigos científicos em periódicos internacionais. Coyne publicou respeitáveis 88 artigos entre 1971 e 2011. Ou seja, Collins fez mais pelo avanço da ciência que todos os novos ateus juntos e mais que o dobro de Coyne, Dawkins e Harris juntos!
  • Um curioso caso de elucubração ateísta feito pelo teórico evolucionista Oliver Curry da London School of Economics: Previu que em cem mil anos a humanidade sofreria variações genéticas que dividiriam a espécie em duas sub-espécies. Uma alta, sadia, atraente e inteligente e outra boba, feia, burra e parecida com duendes (!).... Outra digna de Nostradamus diz que em mil anos a humanidade mediria mais de dois metros de altura, em média, e sua expectativa de vida giraria em torno de 120 anos, seus pênis aumentariam em tamanho e circunferência e tomaríamos sempre porte atlético e saudável! Bela profetada!
Segundo pesquisa Datafolha (2010) 5% dos brasileiros acreditam na Teoria da Evolução! Trágico é saber que qualquer iniciativa de abordar o Criacionismo é vista como entrave ao progresso da ciência e hostilizada com argumentos 'democráticos'!

Seriam essas previsões como as da série "De Volta Para o Futuro"?

DICAS:

terça-feira, 8 de maio de 2012

Religiosidade, Estado Laico e o Fanatismo Ateu



Para entender os conceitos:

Religiosidade significa "qualidade do que é religioso; sentimento de escrúpulos religiosos; disposição ou tendência religiosa (fonte).

Estado Laico é o Estado sem religião, ou melhor, que não prega nenhuma religião, sendo esta de livre escolha de seus cidadãos. Conforme De Plácido e Silva: "LAICO. Do latim laicus, é o mesmo que leigo, equivalendo ao sentido de secular, em oposição do de bispo, ou religioso." (SILVA, 1997, p. 45)

No Brasil em 1824, a Constituição Federal estabelecia a Igreja Católica como sendo a religião oficial do Império. Isto durou até 1890 com a chegada da República. A Constituição Federal de 1988 preceitua: Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.

Como bem esclarece Pontes de Miranda, "estabelecer cultos religiosos está em sentido amplo: criar religiões ou seitas, ou fazer igrejas ou quaisquer postos de prática religiosa, ou propaganda. Subvencionar está no sentido de concorrer, com dinheiro ou outros bens de entidade estatal, para que se exerça a atividade religiosa. Embaraçar o exercício significa vedar, ou dificultar, limitar ou restringir a prática, psíquica ou material dos atos religiosos". (MIRANDA apud SILVA, J., 2000, p. 253 e 254) (fonte)

Ou seja, o Estado não pode subvencioná-lo e também não pode impedir. 

Fanatismo: Adesão cega e incondicionada a um partido, opinião, pessoa ou idéia (Dicionário Piriberam).


Victor Frankl descrevia o fanático por dois traços essenciais: a absorção da individualidade na ideologia coletiva e o desprezo pela individualidade alheia. "Individualidade" é a combinação singular de fatores que faz de cada ser humano um exemplar único e insubstituível.

Ateu: o que nega a existência de qualquer divindade.

Esclarecidos os conceitos, vamos aos fatos:

Recentemente recebeu destaque na grande imprensa o deputado estadual Maciel Messac (PSDB), da Igreja Evangélica Assembléia de Deus que normatizou a leitura bíblica após a apresentação da ata de cada dia. (Lourdes Souza, do UOL em Goiânia).  Mas, e daí?

Acontece que recebi uma tonelada de e-mails e contestações até verbais por parte de amigos ateus. Mais que um contraponto, gostaria que lessem este texto muito mais como uma contribuição ao bom diálogo que, propriamente, uma resposta no sentido clássico do termo.

Misturei conceitos no título propositadamente, pois tenho percebido meus colegas ateus um tanto fanáticos e 'religiosos' demais em suas ênfases anti-deus e pela laicidade do estado e gostaria de abordar sob alguns aspectos essa questão tão delicada que diz respeito às nossas liberdades individuais e, tanto, a como olhamos o outro.

Com suas raízes fincadas no materialismo de Demócrito e no Existencialismo de Sartre o ateísmo moderno sofre de séria ambiguidade: é absolutista ao negar a existência do divino e relativista ao limitar-se a colocar em dúvida somente a onipotência do divino. Como diria Epicuro, 'se Deus é Onipotente, por quê não deteve o mal'?  No útero do ateísmo está um homem que viu um Deus arbitrário, tirano e que firma suas decisões apenas sob a fraqueza humana. Essa ótica ateísta remonta muito mais ao Mito de Prometeu que, por exemplo a YAHWEH ! Portanto o berço do ateísmo é essencialmente religioso!  A "fé" ateísta não se apóia na negação de Deus, mas CONTRA Ele! Fé mais que fanática! 

Relembremos (aqui) algumas 'pérolas' do maior ateu vivo, Richard Dawkins.

O ateísmo moderno se assemelha muito mais a uma 'birra' ideológica contra a falsa representação de Deus que a Igreja Católica Apostólica Romana vendeu à humanidade, que, propriamente, uma alternativa à crença religiosa.Como escreveu Dostoiewsky, " fé que situa-se no cima da escada, penúltimo degrau para a fé perfeita"!

Foi Engels quem disse primeiro ser "perfeitamente notável que, enquanto os socialistas ingleses se opõem em geral ao cristianismo e são obrigados a suportar os preconceitos religiosos dum povo realmente cristão, os comunistas franceses, que pertencem a uma nação considerada pela sua incredibilidade, são por sua vez cristãos. Uma das suas máximas favoritas é "o cristianismo é o comunismo" e, com a ajuda da Bíblia, esforçam-se por demonstrá-lo pelo fato de os primeiros cristãos terem certamente vivido no regime de comunidade de bens". Ou seja, é essencialmente ateísmo humanista que coloca o homem NO LUGAR de Deus e com forte sotaque alemão!

Li certa vez algo como 'A ciência poder-se-ia dar por satisfeita constatando fenômenos naturais sem tocar no domínio da fé; poderia rejeitar o "deus da explicação" sem por isso ter de atacar o Deus da revelação. Mas, inebriada pelo seu poder totalmente novo, procura destruir toda a metafísica. Mais não reconhece uma matéria eterna e ontológicamente suficiente,  e propositadamente submetida a leis naturais.' Concordo!

De forma geral, a supressão de Deus não trouxe à existência o admirável mundo novo que se esperava. Como se a negação de Deus fosse o antídoto contra as atrocidades da natureza humana. Duas guerras mundiais depois, o mundo continua o mesmo em natureza e desvairio. Onde está a Idade da Razão?

Juridicamente.

Nossos amigos ateus se equivocam ao (inconscientemente, talvez) compreender toda iniciativa religiosa como cegadora e diametralmente oposta à liberdade humana, ao exercício livre da razão e à simples plausibilidade. Como a própria letra da lei demonstra, o estado não pode criar religiões nem destruí-las. É assegurado a cada cidadão o direito ao livre exercício e promoção do pensamento, seja religioso ou ateu. E exatamente aqui a atitude fanática do ateísmo se expressa em cores mais nítidas!

Ao expressar seu pensamento religioso, cada ser humano exerce exatamente seu direito assegurado. Assina sua cidadania, reafirma sua INDIVIDUALIDADE! Ou não temos, nós, religiosos, o mesmo direito à cidadania que ateus?

O Estado é laico, mas o tecido social é - ao menos em nossa realidade -  religioso! Se deseja ser expresso em termos absolutos, o ateísmo tem de levar em conta os princípios da democracia! Os mais básicos. E carece entender que nem todas as iniciativas religiosas são, essencialmente, anti-ateístas no que diz respeito à convivência humana.

No que o ateísmo ataca a religião - em mais de um sentido - reconstrói os horrores religiosos. Tudo sob a tutela da chama razão sem Deus. O Estado brasileiro é laico e não será a iniciativa de um deputado de Goiás que desencadeará o "Armagedom" sobre os ateus!

Ademais, todo adventista sabe que a união da igreja ao estado é uma das últimas desgraças da humanidade!

Deus me livre de tal incoerência!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Seita e Preconceito




Destacados eruditos evangélicos têm reconhecido a Igreja Adventista do Sétimo Dia como uma denominação genuinamente cristã. Podem ser mencionados, por exemplo, o presbiteriano Donald G. Barnhouse, o batista Walter R. Martin e o anglicano Geoffrey J. Paxton. Também o “Relatório das Conversações Bilaterais entre a Federação Mundial Luterana e a Igreja Adventista do Sétimo Dia”, ocorridas entre 1994 e 1998, sugere que os luteranos “não tratem a Igreja Adventista do Sétimo Dia como uma seita, mas como uma igreja livre e uma comunhão mundial cristã”. Mas, a despeito disso, evangélicos brasileiros de tendência fundamentalista continuam insistindo que os adventistas devem ser considerados uma “seita” herética e não cristã.

O termo “seita” é geralmente um rótulo apologético e pejorativo, usado por líderes religiosos como um mecanismo de autodefesa, destinado a inibir as pessoas de se relacionarem com pretensos hereges. Em relação aos adventistas, diferentes justificativas têm sido sugeridas para considerá-los como sectários. Uma das mais comuns é a alegação de que os adventistas advogam algumas doutrinas distintivas (como a observância do sábado, a inconsciência dos mortos, a destruição final dos ímpios, o juízo investigativo pré-advento) não compartilhadas pela maioria dos cristãos.

Por trás dessa alegação está a teoria de que uma doutrina, para ser verdadeira, deve ser aceita pelo consenso da maioria dos cristãos, especialmente dos evangélicos. Embora devamos respeitar a opinião de outros, pois “na multidão de conselheiros há segurança” (Pv 11:14; ver 15:22), nem sempre a maioria está correta. Mais importante do que um mero consenso doutrinário é certificarmo-nos de que as doutrinas que advogamos são realmente bíblicas. Toda vez que o consenso da maioria se opõe ao claro ensinamento bíblico, o cristão deve assumir a postura apostólica de que “antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5:29). Outra justificativa para considerar os adventistas como sectários, usada especialmente pelos evangélicos calvinistas, é o fato de os adventistas aceitarem uma manifestação moderna do dom profético na vida e obra de Ellen G. White.

Os evangélicos calvinistas acreditam que o dom profético seextinguiu com a morte do apóstolo João, o último dos apóstolos. Por sua vez, os adventistas crêem que o dom profético foi concedido pelo Espírito Santo à igreja cristã, e não apenas aos apóstolos (ver Rm 12:6; 1Co 12:10, 28; Ef 4:11-14). O próprio apóstolo João orientou os cristãos a testarem os pretensos profetas,e não simplesmenterejeitá-los como se todos os demais fossem falsos (ver 1Jo 4:1). Assim, os adventistas aceitam Ellen White como uma profetisa verdadeira, embora não canônica.

A simples alegação de que determinado grupo de professos cristãos deva ser considerado como sectário não significa muito, pois até mesmo os primeiros cristãos foram considerados pelos judeus como uma “seita” (At 24:14; 28:22). A questão básica não é tanto saber o que os apologetas modernos dizem, de forma preconceituosa, a respeito das “seitas”, mas o que diz a própria Bíblia sobre os ensinos desses grupos religiosos (ver Mt 7:21-23). Em relação aos adventistas, o melhor seria consultar a sua mais importante e representativa exposição doutrinária, encontrada na obra Nisto Cremos: 27 Ensinos Bíblicos dos Adventistas do Sétimo Dia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1989), e analisar criticamente os seus ensinos à luz da Bíblia. À semelhança dos bereanos, devemos sempre examinar as Escrituras “para ver se as coisas” são realmente como as pessoas alegam ser (At 17:11).

Fonte: Sinais dos Tempos, maio/junho de 2002. p. 26

sábado, 28 de abril de 2012

A Cruz e a Teologia da Prosperidade




A chamada “Teologia da Prosperidade”, propagada hoje no Brasil por alguns segmentos evangélicos (especialmente pela Igreja Universal do Reino de Deus e pela Igreja Internacional da Graça), e também pelo Movimento Carismático Católico, tem enfatizado que seguir a Jesus é automaticamente candidatar-se a uma vida de sucesso financeiro, de projeção social e quase imunidade a qualquer tipo de sofrimento.

Cristão que vive sofrendo é porque não está bem espiritualmente: ou está em pecado ou não tem fé. Crente não deve ser pobre, nem doente. Pobreza e doença são marcas de pessoas dominadas pelo poder do diabo.

Diante de tais ensinos uma inevitável questão é: que lugar existe para a mensagem da cruz neste modelo de cristianismo? Ou ainda, será que os mártires do cristianismo primitivo, caso vivessem em nossos dias, seriam aceitos como membros destas igrejas que propagam a teologia da prosperidade? Deixemos que a história e a Bíblia nos falem.

1 – O TESTEMUNHO DA HISTÓRIA

Vejamos primeiramente alguns exemplos de sofrimentos e martírios envolvendo aqueles que fizeram parte dos doze discípulos chamados por Jesus (Marcos 3: 13-19).

Os Doze

· André: após a morte e ressurreição de Jesus, foi pregar o evangelho na região do Mar Negro (hoje parte da Rússia); depois, segundo a tradição, pregou na Grécia, em Acaia, onde foi martirizado numa cruz em forma de “X”. Daí, este instrumento de tortura ter ficado conhecido como “cruz de Santo André”[i]

· Bartolomeu: pregou inicialmente na Arábia, depois Etiópia, e por fim, ao lado de Tomé, atuou como missionário na Índia, onde foi martirizado.[ii]

· Filipe: atribui-se a este apóstolo a fundação da igreja de Bizâncio, cidade mais tarde conhecida como Constantinopla. Posteriormente, pregou o evangelho na Ásia Menor, na região de Hierápolis, onde convertera-se a mulher de um cônsul romano pela sua pregação. O cônsul, então furioso por este episódio, mandou prender Filipe e matá-lo de forma cruel.[iii]

· Matias: para o lugar de Judas Iscariotes, que suicidou-se, a igreja primitiva escolheu Matias como seu substituto (Atos 1:21-26). Segundo a tradição, Matias se tornou missionário na Síria, onde acabou sendo queimado numa fogueira por causa do evangelho.[iv]

· Judas Tadeu: segundo a tradição, pregou na Pérsia, onde também foi martirizado.[v]

· Mateus: desenvolveu grande parte de seu ministério pastoreando a igreja de Antioquia, onde também escreveu o seu evangelho. Dirigiu-se posteriormente para Etiópia, aonde veio a ser martirizado por causa da pregação.[vi]

· Pedro: depois de exercer importante liderança na igreja de Jerusalém, este apóstolo transferiu-se para a cidade de Roma, capital do Império. No ano 67, durante perseguição imposta por Nero, Pedro foi preso e condenado a morrer crucificado. Relatos do segundo século afirmam que o apóstolo, antes de sua execução, disse que não era digno de morrer como morrera Jesus, o seu Senhor, e pediu para que fosse crucificado de cabeça para baixo, e assim ocorreu.[vii]

· Simão Zelote: desenvolveu seu ministério de evangelização na Pérsia, onde o culto ao deus Mithras (deus Sol) estava extremamente desenvolvido. Devido a conflitos com seguidores de Mithras, acabou sendo morto por se negar a oferecer sacrifício a esta divindade.[viii]

· Tiago (Filho de Alfeu): pregou o evangelho na Síria. Segundo o historiador antigo Flávio Josefo,[ix] foi linchado e apedrejado até a morte.[x]

· Tiago (Filho de Zebedeu): segundo tradições antigas, citadas por Justo Gonzalez, este apóstolo desenvolveu um trabalho missionário na Espanha, pregando na região da Galícia e Zaragoza. “Seu êxito não foi notável, pois os naturais desses lugares se negaram a aceitar o evangelho”[xi]. Ao regressar para Jerusalém, percorreu o caminho que deu origem ao lugar hoje conhecido como “Caminho de San Tiago de Compostela”[xii], na Espanha. Em Jerusalém, veio a ser preso, sendo em seguida, decapitado por ordem de Herodes Agripa, no ano 44 (Atos 12:1,2).

· Tomé: segundo a tradição, desenvolveu sua atividade missionária inicialmente na Índia.[xiii] Dali, dirigiu-se para o Egito, onde realizou importante trabalho entre os habitantes de língua copta, ministério este que deu origem à comunidade até hoje lá existente. A Igreja Cristã Copta, como é conhecida, está separada do catolicismo romano desde o IV século, tendo patriarcas em sua liderança.

· João: este é, reconhecidamente pela tradição e pelos depoimentos do cristianismo antigo, o último apóstolo a morrer. Morreu na velhice, por volta do ano 100, na cidade de Éfeso, onde morava com sua família.[xiv] Este apóstolo desenvolveu o seu ministério na Ásia Menor onde foi preso nos anos 90, na época da intensa perseguição imposta pelo imperador Domiciano ao cristianismo, quando acabou deportado à ilha de Patmos,[xv] no Mar Egeu, vindo a receber ali a revelação do Apocalipse, por volta do ano 96. Sendo solto posteriormente, permaneceu em Éfeso ensinando até o final da sua vida.[xvi].

Além dos doze, outros importantes líderes do cristianismo primitivo deram a vida pela causa do evangelho. É o caso, por exemplo, de Tiago “o irmão de Senhor” que exerceu forte liderança na igreja de Jerusalém. A história diz que sacerdotes e fariseus colocaram Tiago à parte alta do templo e de lá o lançaram abaixo, “passando em seguida a apedrejá-lo, visto não ter morrido logo que caiu no chão, enquanto, ajoelhando-se pedia o perdão de Deus aos seus agressores”. Deste modo ele sofreu o martírio.[xvii]

Também Paulo considerado um apóstolo “nascido fora de tempo” (I Cor. 15:8), tornara-se o grande líder da igreja entre os gentios e propagador da “mensagem da cruz” (I Cor. 1:18-23). Foi ele julgado perante Nero e condenado a ser decapitado.[xviii]

Também Timóteo, discípulo de Paulo, segundo testemunho de Nicéfero, no segundo século, “foi martirizado durante o reinado de Domiciano, no ano 96 a.D., em Éfeso, cidade onde morava quando o apóstolo lhe escreveu as duas cartas”.[xix]

Até ao terceiro século da era cristã a cruz realmente pautou a atuação da igreja. E é prova evidente disto o fato de tal período ter ficado conhecido como a “era dos mártires”. O historiador Justo Gonzalez descreve com precisão ainda outros fatos deste período, como por exemplo, o testemunho de fé demonstrado por Inácio de Antioquia. Discípulo do apóstolo João, viveu no período de 60 a 117 d.C. Tornou-se célebre pela fidelidade a Cristo em meio às perseguições que sofrera e às cadeias que enfrentou devido à fé que professava. Sendo levado à Roma, em algumas paradas obrigatórias, não se esquecia de escrever às igrejas que o recebiam ou lhe enviavam saudações. Pelo testemunho vivo de Jesus Cristo, Inácio está disposto a enfrentar a morte. E, a caminho do martírio, proferiu as seguintes palavras: “Não quero apenas ser chamado de cristão, quero também me comportar como tal. Meu amor está crucificado. Não me agrada mais a comida corruptível… mas quero o plano de Deus que é a carne de Jesus Cristo… e seu sangue quero beber, que é bebida imperecível. Porque quando eu sofrer, serei livre em Jesus Cristo, e com ele ressuscitarei em liberdade. Sou trigo de Deus, e os dentes das feras hão de moer, para que possa ser oferecido como pó limpo de Cristo”.[xx]

Não é diferente o exemplo de fé de Policarpo de Esmirna, o qual, diante da insistência das autoridades para que jurasse pelo imperador e maldissesse a Cristo, recebendo em troca disto a liberdade, respondeu: “vivi oitenta e seis anos servindo-lhe, e nenhum mal me fez, como poderia eu maldizer ao meu rei, que me salvou?” E estando atado já em meio à fogueira, Policarpo elevou os olhos ao céu e orou em voz alta: “Senhor Deus Soberano… dou-te graças, porque me consideraste digno deste momento, para que, junto a teus mártires, eu possa ser parte no cálice de Cristo. Por isso te bendigo e a te glorifico. Amém”.[xxi]

2 – O TESTEMUNHO DA BÍBLIA

A teologia bíblica não anula o sofrimento e a pobreza . Os cristão não estão livres dos infortúnios e mazelas da vida. Vejamos o que diz a Bíblia.

A Bíblia e os pobres

“Bem aventurados, vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus” (Lc 6.29).
“O Espírito do Senhor é sobre mim pois me ungiu para evangelizar os pobres”. (Lc 4.18).
“Falta-te uma coisa, vai vende tudo quanto tens, e dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me” (Mc 10.21).
“Porque sempre tendes os pobres convosco, e podeis fazer-lhes bem” (Mc 14.7).
“Porque todos ali deitaram do que lhes sobejava, mas esta, da sua pobreza, deitou tudo o que tinha, todo o seu sustento” (Mc 12,44).
E as advertências de Deus aos ricos são bem claras:
“Mas ai de vós ricos! Porque já tendes a vossa consolação”. (Lc 6.24).
“Não ajunteis tesouros na terra… mas ajuntais tesouros no céu… Porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração”. Mt 6.19-21.
“É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus” (Mc 10.25).

Como mencionou o Mensageiro da Paz: “A TP é um insulto aos cristãos do Terceiro Mundo. milhões de crentes zelosos no Terceiro Mundo nada têm de posses materiais. Estão eles enganados ou fracos na fé? Eles entendem mais sobre a cruz do que de carro do ano e a única riqueza de que se ufanam é a vida eterna”.[xxii]

A BÍBLIA E A DOENÇA

Os mais fervorosos servos de Deus do passado e do presente não ficaram imunes às doenças e aos sofrimentos. Isso se vê na vida de José, de Jeremias e de Paulo. Paulo fala de prisões, açoites sem medida, perigos de morte, chibatadas, apedrejamento, naufrágios, fome, sede etc. (2 Co 11.23-29).É interessante notar que apesar da fé a medicina e os médicos não foram dispensados.

Na Bíblia há várias passagens referentes a médicos. Vamos examinar algumas delas.

Médicos no AT

Em Gênesis 50, verso 2, está escrito o seguinte: “E José ordenou aos seus servos, os médicos, que embalsamassem a seu pai; e os médicos embalsamaram a Israel”.

José, o ditoso filho de Jacó, elevado a vice-rei, na corte do Egito, em virtude da sua fidelidade, – tinha uma junta médica a seu serviço.

José, o crente exemplar, não combatia a medicina e fazia uso dela.

No capítulo 8 de Geremias verso 22, encontramos o seguinte: “Porventura não há ungüento em Gileade? Ou não há lá médico? Porque pois não teve lugar a cura da filha do meu povo?”.

Examinando-se esta passagem, à luz do contexto, verifica-se que Deus tinha queixas profundas contra o seu povo, em virtude da sua desobediência e franca apostasia. Deus não podia mais suportar tamanha impiedade e já resolvera trazer os rebeldes a juízo.

É interessante notar que Deus considera o pecado uma enfermidade moral e os pecadores, espiritualmente, enfermos. Os filhos de Israel estavam, portanto, gravemente enfermos (Jer. 8:22).

Então, em linguagem irônica, Deus fala nestes termos: “Porventura não há ungüento em Gileade? Ou não há lá médico?” “Por que pois não teve lugar a cura da filha do meu povo?”

É evidente que os médicos não podiam curar esta espécie de enfermidade. Só Deus pode perdoar pecados e mais ninguém. A linguagem é figurada e está vazada em franca ironia.

Entretanto, há uma referência, neste texto, que nós queremos salientar. É a que diz respeito aos médicos de Gileade, aos médicos da terra santa. Eles estavam lá para servir ao povo de Deus. E Deus os reconhece e lhes dá este direito.

Para o caso eles não serviam porque os males exigiam outra clínica – a espiritual, a divina. No entanto, para os males físicos, eles estavam a serviço da ciência, devidamente aprovados por Deus, a exercer a sua função samaritana.

Consideremos mais esta passagem:
“Naquele dia levantará este a sua voz dizendo: não posso ser médico, nem tão pouco há em minha casa pão, ou vestido algum; não me ponhais por príncipe” (Is 3:7). Lendo-se os capítulos 2 e 3 deste livro, verifica-se que o profeta está tratando de problemas graves dos últimos tempos (cap. 2:2), em relação aos filhos de Israel. Tão difícil será a crise que virá sobre os filhos da eleição, por causa da sua desobediência, – que Deus mandará, além de muitos outros males, – a fome, a falta de liderança e, note-se bem, – a escassez de médicos. O que fica bem claro, à luz desta profecia, é que Deus não só aprova o serviço indispensável dos médicos mas, até, castiga o seu povo com a falta deles.

Existe mais uma passagem, que nós queremos mencionar.É a que se acha em II Cron 16:12: “E caiu Asa doente de seus pés no ano trinta e nove do seu reinado; grande por extremo era a sua enfermidade, e contudo na sua enfermidade não buscou ao Senhor, mas antes aos médicos”.

Aqui os apóstolos da “cura divina” fazem um cavalo de batalha. Acham que o grande pecado do rei Asa foi “buscar aos médicos”, quando a Bíblia não diz tal coisa. O seu grave erro consistiu no fato de que ele “não buscou ao Senhor”. Ele poderia consultar o seu médico, à semelhança de José, sem todavia desprezar ao Senhor. Este foi o seu grande erro.

Médicos no NT

Em nenhum lugar da Escritura se lê que Paulo combatia a medicina ou o precioso serviço dos médicos. Ao contrário, ao companheiro Lucas, ele chamava, carinhosamente – “o médico amado” (Col. 4:14). Como se percebe, Paulo não considerava o doutor. Lucas – um concorrente indesejável ou crente carnal, sem fé, amante das “drogas”, mas um servo do Senhor, fiel e excelente cooperador (Filemon, 24). Paulo operava milagres porém não era milagreiro e sabia dispensar aos médicos os respeitos devidos e as honras merecidas.

Se a medicina fosse incompatível com a Bíblia, o apóstolo não teria dado a Lucas o prestígio da sua profissão e a confiança do seu companheirismo (II Tim. 4:11).

Em matéria de religião, Jesus é a autoridade máxima. Ninguém seria capaz de contestar esta afirmação. “E Jesus, respondendo, disse-lhes: Não necessitam de médico os que estão sãos mas, sim, os enfermos. Eu não vim chamar os justos mas, sim, os pecadores ao arrependimento” (Lucas, 5: 31-32).

Esta é a opinião de Jesus a respeito dos médicos e dos enfermos. Não há qualquer restrição a respeito deste assunto por parte do Senhor Jesus. A sua opinião é clara e taxativa: “os sãos não precisam de médico mas, sim, os enfermos”. Não se trata de um texto isolado. O Senhor Jesus falou com tanta clareza e com tanta ênfase, que os três Evangelhos sinóticos contêm, o registro das suas palavras. Há afirmações de Jesus que se acham registradas, apenas, num Evangelho. Há outras, porém, que se acham difundidas nos quatro Evangelhos ou, pelo menos, nos Evangelhos sinóticos.

A difusão dá realce

É o caso em apreço. O Senhor sabia que, nos últimos tempos, os falsos profetas iriam pôr em choque a medicina com a religião e, por isto, afirmou, reafirmou, e difundiu nos três primeiros Evangelhos: “Os sãos não necessitam de médico mas, sim, os doentes”.

Os milagres de Cristo não eram operados para atrair a atenção para si mesmo, nem para enriquecê-lo monetariamente com ofertas dos agradecidos. Ao contrário, o objetivo de cada milagre era trazer honra para Deus, abrir portas nos corações quebrantados, para permitir que a graça entrasse na maneira salvadora. “Cristo nunca operou um milagre, senão para satisfazer uma necessidade real, e todo milagre era de molde a dirigir o povo à árvore da vida, cujas folhas são para a cura das nações”.[xxiii]

Os verdadeiros milagres não resultam de pedidos impulsivos e insistentes, mas são concedidos como Deus julga melhor. “Alguns morreram nos dias de Cristo e nos dias dos apóstolos, porque o Senhor sabia precisamente o que era melhor para eles”.[xxiv]

Em nossos dias, a “Palavra da Cruz” parece continuar sendo “Loucura” (1 Cor 1:18), para alguns segmentos cristãos. Mas, a cruz, continuará carregando em seu significado o mistério e o segredo da vida. “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome a cruz e siga-me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á, mas qualquer que perder a sua vida por amor de mim e do evangelho, esse a achará” (Mc. 8:34-35).

Referências:

[i] Conciso Dicionário Bíblico. Rio de Janeiro: JUERP, 1985. p. 11. Bíblia de Estudo Alfalit. Rio de Janeiro: Vida, 1996, p. 44.

[ii] Pantero de Alexandria, diz ter ido à Índia, no ano de 190, e ter encontrado cristãos morando lá, os quais atribuíam a Bartolomeu e Tomé a origem do evangelho naquela região. ALMEIDA, J. Thomaz. As marcas de Cristo na História dos Homens. São Paulo: Hierograf, 1989, p. 12.

[iii] GONZALEZ, Justo. A Era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1986, p.42.

[iv] Conforme Documentário em vídeo: A Perseguição e o Triunfo da Igreja Primitiva – de Cristo a Constantino. (Parte I). Prod: Gateway Films em Associação com Christian History Institute e Eo Television. São Paulo: REBORN – Distribuidora de Vídeo Ltda., 1990.

[v] Bíblia de Estudos Alfalit. Rio de Janeiro: Vida, 1996, p. 44.

[vi] Bíblia de Estudos Alfalit. Rio de Janeiro: Vida, 1996, p. 44.

[vii] WALKER, W. História da Igreja. Vol. 1. Rio de Janeiro; Juerp. 1985, p. 54.

[viii] Conforme Documentário em vídeo: A Perseguição e o Triunfo da Igreja Primitiva – de Cristo a Constantino. (Parte I). Prod: Gateway Films em Associação com Christian History Institute e Eo Television. São Paulo: REBORN – Distribuidora de Vídeo Ltda., 1990.

[ix] Josefo, filho de um sacerdote judeu, nascido no ano 37, na Palestina, foi um dos líderes da revolta judaica contra Roma, no ano 66 d.C. Ao ser capturado pelos romanos e levado para a capital do Império, recebeu o nome de Flávio, vindo a ser um historiador da corte. Em seus escritos sobre a história dos judeus, faz importantes menções sobre a morte de Jesus, bem como de alguns apóstolos.

[x] Conforme Documentário em vídeo: A Perseguição e o Triunfo da Igreja Primitiva – de Cristo a Constantino. (Parte I). Prod: Gateway Films em Associação com Christian History Institute e Eo Television. São Paulo: REBORN – Distribuidora de Vídeo Ltda., 1990.

[xi] GONZALEZ, Justo. A Era dos Mártires, p. 43.

[xii] Ainda hoje, místicos e peregrinos tentam refazer este caminho que fora percorrido pelo apóstolo, o qual tem, ao todo, uma extensão de aproximadamente 800 km.

[xiii] ALMEIDA, J. Thomaz. As Marcas de Cristo na História dos Homens. P.12; GONZALEZ, Justo. A Era dos Mártires, p. 44.

[xiv] O Novo Dicionário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1990. Vol. II. P. 831.

[xv] GONZALEZ, Justo. A Era dos Mártires, p. 60.

[xvi] Ellen G. White no livro Atos dos Apóstolos, p. 570, afirma que “João foi lançado dentro de um caldeirão de óleo fervente; mas o Senhor preservou a vida seu fiel servo…”. Ver também Justo Gonzalez: A Era dos Mártires, p. 41.

[xvii] ANGLIN, W. KNIGHT, A. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Casa Editora Evangélica, 1947, p. 11, 12.

[xviii] WHITE, Ellen G. Atos dos Apóstolos. Santo André – SP: Casa, 1976, p. 509.

[xix] ANGLIN; KNIGHT, op cit, p. 15.

[xx] GONZALEZ, Ibid, p. 66.

[xxi] Ibid, p. 72.

[xxii] MENSAGEIRO DA PAZ. Jornal. Junho de 1991, p 15.

[xxiii] WHITE, Ellen G. O Desejado de todas as Nações. p. 272.

[xxiv] ___________. Medicina e Salvação. p. 17.


Posted on 27/04/2012 by Blog Sétimo Dia

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Deus, Auchwitz e o Orgasmo do Pedófilo



A escritora estadunidense Ellen White nos deixou muitas gemas preciosas de sabedoria. Sobre uma em especial gostaria de falar:

"Muitas estrelas que temos admirado por seu brilho se tornarão trevas"
 WHITE, Ellen; "Profetas e Reis", pág 188

É com pesar, mas firme repúdio, que me lembro de uma 'pérola' religiosa que li certa vez e divido com você agora.

Ocorre que o pastor Ricardo Gondim (uma 'estrela' que por seu brilho tenho admirado há anos), da Igreja Evangélica Betesda saiu por aí dizendo-se a favor da união homoafetiva e outras 'jóias' do pensamento evangélico a respeito da soberania de Deus.... Acompanhe:

O pastor Ricardo Gondim tem o dom da oratória. E da polêmica. Na semana que passou, o presidente nacional da igreja Betesda, cearense radicado em São Paulo há 20 anos, deixou de ser colunista da revista evangélica Ultimato por defender o reconhecimento legal de uniões homoafetivas.

Antes de publicizar sua opinião sobre a necessidade da igreja não se intrometer no funcionamento do Estado laico, o pastor Gondim já havia causado estranhamento em alguns setores evangélicos ao questionar o modo como eles entendiam a soberania Divina. E em seu site publicou um artigo revelando o temor que um dia os evangélicos tomem o poder no Brasil (leia trechos nesta página).

Nesta entrevista exclusiva, concedida por telefone na última sexta-feira, o pastor justifica seus posicionamentos, reafirma suas posturas e declara: “O Brasil não se tornará melhor com o crescimento do Movimento Evangélico.”

O senhor causou polêmica ao defender publicamente a regulamentação de uniões homoafetivas no Brasil. O senhor mantém esse pensamento?
Ricardo Gondim – Não é uma questão de pensamento. É uma questão de lógica e eu repito o que disse. Em um estado laico, a lei não pode marginalizar ou distinguir homens ou mulheres que se declarem homoafetivos. Há que se entender que num estado laico não podemos confundir teologia, convicções pessoais, com o ordenamento de leis de um país. Não podemos impor preceitos religiosos para toda a sociedade civil. Se os preceitos são meus, você tem o direito de não adotá-los. Foi assim que me posicionei sobre essa questão do STF, que, a meu ver, agiu corretamente garantindo o direito de um segmento de nossa sociedade.

Além do posicionamento a favor da regulamentação de uniões homoafetivas, há outros pontos polêmicos em declarações recentes suas. Uma das críticas que setores evangélicos fazem ao senhor diz respeito à sua opinião sobre a soberania Divina. Eles dizem que o senhor passou a pregar que Deus não é soberano.
O que acontece é que eu descarto a teologia que se difundiu sobre a soberania de Deus. Por essa teologia, Deus tem o controle absoluto de todas as coisas. E as pessoas não estão dispostas a entender que o corolário desse pensamento, o que dele decorre, é que até o orgasmo, o gozo do pedófilo, ou os horrores de Auschwitz (um dos mais conhecidos campos de concentração nazista) estão na conta de Deus, sob a alegativa de que Ele é soberano. Se as pessoas estão dispostas a entender assim, esse Deus é um monstro, não um Deus de amor. A minha leitura da Bíblia é a partir de Jesus Cristo, que é um Deus de amor, e não de Deus títere, que é responsável por chacinas, atrocidades, limpezas étnicas. A história segue não porque Deus a controla, a história segue porque somos personagens livres e nos comportamos com desobediência à vontade de Deus. É por isso que existem a miséria, os crimes, a exclusão. Porque Sua vontade é contrariada. As pessoas não estão dispostas a lidar com esses conceitos, preferem se amparar na Soberania, que nos rouba a nossa responsabilidade na história.

Recentemente, o senhor publicou no seu site o artigo Deus nos livre de um Brasil evangélico, onde demonstra o seu temor que o segmento chamado Movimento Evangélico chegue ao poder no Brasil e aponta uma série de razões para isso. Como esse artigo foi recebido?
Foi muito mal recebido. Porque há, sim, um segmento no Brasil, que se auto-denomina Movimento Evangélico, que difunde a ideia de que se os evangélicos se multiplicarem no País, se houver um número suficiente para dominar a política, as leis, se chegarem ao poder, o Brasil será um País melhor. Isso é um ledo engano. O Brasil não se tornará melhor com o crescimento do Movimento Evangélico. Porque esse crescimento não significa por si só o crescimento dos valores do Reino de Deus, que são a justiça, a inclusão que dos que estão à margem, o amor. Esses valores não são prioridade para o Movimento Evangélico. Até porque, o número crescente de evangélicos também estará absorvendo outros valores como a cobiça, a injustiça social, o desejo de crescimento financeiro e de poder. Esta última tentativa de interferência no ordenamento do STF é um exemplo desse projeto de poder.

O senhor se refere à votação da regulamentação das uniões homoafetivas?
Sim. Eles ficaram numa campanha interna, enviando mensagens pressionando os ministros para que votassem contrários à união homoafetiva. E ficavam conclamando seus fieis para fazer o mesmo. Isso em um estado laico é um absurdo. A mesma coisa está acontecendo agora no Congresso Nacional.

O senhor fala da atuação da bancada evangélica na suspensão, por parte do Governo Federal, da distribuição do kit anti-homofobia nas escolas?
Exatamente. Falo de uma das maiores aberrações éticas que já surgiu neste País nos últimos tempos. Em nome de blindar um ministro que está suspeito de enriquecimento ilícito, que está tendo que explicar o aumento meteórico de seu patrimônio, negociou-se a questão do kit anti-homofobia. Isso mostra do que esta bancada, que se diz evangélica, que diz representar os evangélicos, está disposta a negociar. Em nome desse projeto de poder que eu falei anteriormente, negociou-se um projeto de grande valor para esse País. Isso é lamentável, completamente lamentável.

O senhor encontra ressonância para esse tipo de discurso na comunidade evangélica ou sua fala – assim como o pensamento por ela representado – é dissonante?
Ricardo – Não é dissonante, de maneira nenhuma. Existe um grande grupo que concorda com esse pensamento e que caminha nessa linha. Embora eu esteja em baixo de grande percepção por conta de grupos intolerantes e fundamentalistas, tenho me surpreendido com o número de evangélicos que me dizem para continuar.

O senhor se arrepende de ter se manifestado publicamente sobre essas questões?
Ricardo – Não. Absolutamente. Eu continuo repetindo o que disse. As minhas convicções não são intempestivas, são frutos de amadurecimento teológico. O estado é laico, e é importante que se mantenha assim. Num estado laico todos os grupos são protegidos, até os religiosos.


 1 Coríntios 3:19 diz

 "Porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia."


Nota do "ArmaduraAdventista"|:
O que os políticos da bancada evangélica desejam é PODER! Não se enganem os cristãos!